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    Apneia do sono e TDAH: a conexão que poucos médicos falam

    Apneia do sono e TDAH. Entenda a conexão científica entre as duas condições e por que investigar o sono muda tudo.

    A criança que não para quieta na sala de aula. O adulto que perde o fio das conversas, esquece compromissos e não consegue terminar o que começa. O adolescente que rende mal na escola apesar de todo esforço. Em muitos desses casos, a investigação chega ao mesmo diagnóstico: TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade).

    Mas e se, em parte desses casos, o diagnóstico estiver errado? Ou, mais precisamente: e se o TDAH existir, mas uma outra condição estiver amplificando todos os seus sintomas — ou até simulando-os — sem que ninguém tenha pensado em investigar?

    Essa outra condição é a apneia obstrutiva do sono.

    A conexão entre apneia do sono e TDAH é uma das áreas mais instigantes da medicina do sono atual. Estudos recentes publicados em periódicos como o Journal of Attention Disorders e o Journal of Clinical Sleep Medicine documentam que crianças e adultos com apneia frequentemente apresentam desatenção, impulsividade, hiperatividade e dificuldades cognitivas — sintomas praticamente idênticos aos do TDAH — e que esses sintomas podem melhorar significativamente após o tratamento da apneia. Apesar disso, a investigação do sono raramente faz parte do protocolo padrão de avaliação do TDAH nas consultas.

    Este artigo explica como e por que essas duas condições se entrelaçam, quais são os sinais de alerta, o que a ciência mais recente diz sobre o tema e por que fazer a pergunta certa — sobre o sono — pode ser o ponto de virada no tratamento de muita gente.

    O tamanho do problema: apneia do sono e TDAH no Brasil

    Para entender a relevância do tema, basta olhar para os números de cada condição separadamente.

    O TDAH é o transtorno do neurodesenvolvimento mais comum do mundo. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, a prevalência é estimada em 7,6% entre crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, 5,2% entre adultos de 18 a 44 anos e 6,1% acima dos 44 anos. 

    Cerca de 11 milhões de brasileiros convivem com o transtorno, conforme levantamento de 2022. Em 2022, o país registrou mais de 229 mil atendimentos ambulatoriais de crianças com TDAH, principalmente em clínicas especializadas.

    A apneia do sono, por sua vez, afeta aproximadamente 27 milhões de brasileiros — sendo que uma parcela expressiva ainda não tem diagnóstico. Segundo o estudo EPISONO, conduzido pelo Instituto do Sono, cerca de 33% dos adultos paulistanos apresentam algum grau de apneia obstrutiva.

    Quando se coloca esses dois grupos lado a lado, a sobreposição é impossível de ignorar. Estudos indicam que entre 25% e 50% dos adultos com TDAH têm algum distúrbio do sono associado. Em crianças com apneia, pesquisa da American Academy of Pediatrics com mais de 11.000 participantes revelou que as que tinham distúrbios respiratórios do sono apresentavam de 40% a 100% mais probabilidade de mostrar, aos 7 anos, sinais de hiperatividade, problemas de concentração, agressividade e incapacidade de seguir regras — um perfil comportamental praticamente indistinguível do TDAH.

    Por que a apneia produz sintomas de TDAH: o mecanismo pelo caminho mais curto

    Para entender como uma condição respiratória noturna pode produzir os mesmos sintomas de um transtorno neurológico, é preciso entender o que acontece no cérebro durante uma noite com apneia.

    A apneia obstrutiva provoca pausas repetidas na respiração durante o sono — algumas centenas de vezes por noite nos casos graves. Cada pausa causa uma micro desoxigenação: o nível de oxigênio no sangue cai, o cérebro detecta o problema, aciona um micro-alerta e a pessoa sai do sono profundo para o sono superficial, muitas vezes sem perceber conscientemente que acordou.

    O problema não é apenas a privação de sono total. É a destruição da arquitetura do sono. O sono profundo — especialmente os estágios N3 e REM — é o período em que o cérebro consolida memórias, regula neurotransmissores, repara tecidos e realiza o que a ciência passou a chamar de “limpeza glinfática”: a eliminação de resíduos metabólicos acumulados durante a vigília.

    Quando esse processo é interrompido repetidamente pela apneia, as consequências neurológicas são diretas. Estudos citados no Journal of Attention Disorders documentam que a hipóxia — a baixa concentração de oxigênio — leva ao estresse oxidativo, com aumento de citocinas inflamatórias que danificam neurônios nas regiões responsáveis por atenção e funções executivas. 

    As áreas mais afetadas incluem o córtex pré-frontal, a principal estrutura do cérebro envolvida no controle da impulsividade, no planejamento, na manutenção da atenção e na regulação emocional.

    Não por acaso, o córtex pré-frontal é exatamente a região estruturalmente envolvida no TDAH. No transtorno neurobiológico, há uma hipofunção dos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico nessa região — o que compromete as mesmas funções executivas afetadas pela privação crônica de sono por apneia. Em termos funcionais, o resultado é parecido: dificuldade de concentração, impulsividade, irritabilidade, esquecimentos frequentes, dificuldade de organização.

    Em crianças, essa semelhança é ainda mais acentuada — e paradoxal. Enquanto adultos privados de sono ficam sonolentos, crianças frequentemente reagem à privação de sono com hiperatividade. O sistema nervoso infantil em desenvolvimento ativa mecanismos compensatórios quando submetido a privação crônica de oxigênio e sono fragmentado, resultando em agitação motora intensa — o sinal que mais frequentemente leva ao diagnóstico de TDAH.

    Os sintomas que se confundem: quando é apneia, quando é TDAH?

    apneia do sono e TDAH

    A sobreposição de sintomas é o coração do problema diagnóstico. Compare os dois quadros:

    No TDAH: dificuldade de manter atenção em tarefas, esquecimentos frequentes, organização deficiente, impulsividade, irritabilidade, dificuldade de regular emoções, inquietação motora, baixo desempenho escolar ou profissional.

    Na apneia do sono não tratada: sonolência diurna, dificuldade de concentração e memória, irritabilidade, variações de humor, baixo rendimento escolar e profissional, hiperatividade em crianças, e — em muitos adultos — a sensação de “névoa mental” ou brain fog que impede o raciocínio claro.

    A lista é quase idêntica. E esse é o problema: um profissional que avalia o comportamento e o desempenho de uma criança ou adulto sem investigar o sono pode interpretar toda essa sintomatologia como TDAH puro — prescrevendo medicação estimulante sem jamais tratar a raiz do problema.

    Estudo do Journal of American Osteopathic Association estima que até 90% das crianças com apneia do sono têm seus sintomas atribuídos inicialmente a problemas psicológicos ou comportamentais. A mesma lógica se aplica a adultos que chegam a consultórios psiquiátricos e psicológicos com queixas de desatenção, esquecimento e impulsividade sem nunca terem feito uma polissonografia.

    Adultos invisíveis: o grupo que ninguém está investigando

    Muito do debate sobre apneia e TDAH se concentra em crianças — e por boas razões, já que as consequências do sono fragmentado no desenvolvimento neurológico infantil são bem documentadas. Mas há um grupo que permanece amplamente invisível nessa conversa: os adultos diagnosticados com TDAH em algum momento da vida que desenvolvem apneia mais tarde, ou que nunca foram investigados para apneia.

    Pesquisa publicada no Brazilian Journal of Health Review em 2024 aponta que a prevalência de distúrbios do sono em adultos com TDAH varia entre 25% e 50%, com impacto direto nos sintomas cognitivos e emocionais. Ao mesmo tempo, a SAOS é frequentemente subdiagnosticada em adultos que já carregam outros diagnósticos — porque seus sintomas são atribuídos ao transtorno já conhecido, sem que se questione se algo mais pode estar em jogo.

    O perfil de risco para apneia também aumenta com a idade: ganho de peso, perda de tônus muscular das vias aéreas, alterações hormonais. Um adulto que foi diagnosticado com TDAH na infância e que nos últimos anos viu seus sintomas piorar, passou a roncar, acordar com dor de cabeça ou sentir sonolência diurna intensa tem razões concretas para investigar a apneia — independentemente do diagnóstico psiquiátrico que já carrega.

    Quando investigar o sono antes de (ou junto com) o TDAH

    Não existe um consenso clínico universal sobre quando investigar a apneia no contexto do TDAH, mas há indicadores que justificam fortemente a investigação. Considere a polissonografia ou o estudo do sono antes ou em paralelo à avaliação do TDAH quando:

    • A criança ou adulto ronca com frequência, especialmente de forma alta e irregular, com pausas perceptíveis na respiração.
    • A pessoa acorda com dor de cabeça, especialmente na região frontal, de manhã.
    • Há sonolência diurna excessiva que não é explicada por horário de dormir insuficiente.
    • A criança apresenta enurese noturna (xixi na cama) além das queixas comportamentais.
    • Existe relato de sono agitado, ranger de dentes, respiração bucal predominante ou terrores noturnos.
    • O tratamento com medicação para TDAH (como metilfenidato ou lisdexanfetamina) não produz a melhora esperada ou os efeitos parecem insuficientes para o nível de comprometimento relatado.
    • Os sintomas pioraram nos últimos anos sem mudança evidente nas circunstâncias de vida.

    Nesses cenários, a investigação do sono não é um passo opcional — é uma parte responsável da avaliação clínica completa.

    O que acontece quando a apneia é tratada: a melhora que surpreende

    Um dos achados mais impactantes da pesquisa sobre apneia e TDAH é o que acontece quando a apneia é tratada em pacientes que tinham sintomas TDAH-like.

    Em crianças cujo TDAH era causado ou amplificado por apneia decorrente de amígdalas e adenoides hipertrofiadas, a amigdalectomia pode resultar em melhora dramática — e às vezes completa — dos sintomas comportamentais. Estudos citados pela literatura otorrinolaringológica mostram que a cirurgia, quando bem indicada, pode reduzir ou eliminar completamente o quadro que simulava TDAH.

    Em adultos, o tratamento com CPAP tem demonstrado resultados expressivos sobre a cognição e a regulação emocional. Pacientes que passaram a usar o CPAP regularmente relatam melhora na memória de trabalho, na capacidade de concentração, na estabilidade emocional e na qualidade das relações interpessoais — ganhos que em muitos casos vão além do que o tratamento farmacológico para TDAH sozinho havia produzido.

    É importante frisar, no entanto, que tratar a apneia não equivale a tratar o TDAH quando ambas as condições coexistem. Muitos pacientes têm as duas condições simultaneamente — e nesse caso, tratar apenas a apneia pode não ser suficiente. 

    O que muda é que, com o sono restaurado, o tratamento do TDAH passa a funcionar sobre um cérebro que de fato descansou, o que frequentemente melhora a resposta à medicação e às intervenções comportamentais.

    A conversa que precisa acontecer na consulta

    Se você ou seu filho tem diagnóstico de TDAH — ou está em processo de avaliação — há perguntas que vale levar à consulta com o médico responsável pelo acompanhamento:

    “Já foi investigada a possibilidade de distúrbio do sono como fator contribuinte para os sintomas?”

    “Vale solicitar uma polissonografia antes ou em paralelo ao início do tratamento medicamentoso?”

    “Há ronco, pausas na respiração, sono agitado ou sonolência diurna que mereçam atenção?”

    Médicos especializados em sono são os profissionais mais indicados para conduzir essa investigação. O diagnóstico de apneia é feito pela polissonografia, e os resultados podem mudar completamente o plano terapêutico.

    A pergunta sobre o sono não é um desvio do diagnóstico de TDAH. É uma parte responsável e muitas vezes reveladora da investigação.

    Como a CPAPS pode te ajudar com eficácia

    A CPAPS, referência nacional em saúde do sono e qualidade respiratória, entende profundamente os desafios enfrentados por quem convive com a apneia do sono.

    ✔️ Oferecemos uma linha completa de soluções para distúrbios do sono e respiratórios. 

    ✔️ Nossa equipe é composta por profissionais capacitados, especializados em orientar cada paciente na escolha da solução mais adequada para seu quadro de apneia. 

    ✔️ Atuamos de forma integrada, não apenas fornecendo produtos, mas também educando, acolhendo e oferecendo suporte técnico contínuo, tanto para pacientes quanto para famílias. 

    ✔️ Além disso, através do nosso Projeto CPAP Solidário, promovemos o acesso democrático a equipamentos de saúde respiratória, sempre alinhados às melhores práticas clínicas e científicas.

    Fale com a CPAPS: 📞 0800 601 9922

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